Árvores
Um conjunto de elementos chamados “pontos”
Uma função ‘L’ que atribuiu a cada ponto x um inteiro positivo L(x) chamado “nível” de x
Uma relação x R y definida em S, que se lê “x é um predecessor de y” ou “y é sucessor de x”. Essa relação deve obedecer às seguintes condições:
C1: há um único ponto a1 de nível 1. Esse ponto é chamado a origem da árvore.
C2: qualquer ponto diferente da origem tem um único predecessor.
C3: para quaisquer pontos x, y, se y for sucessor de x, então l(y) = l(x) + 1.
Ponto final = não tem sucessor
Ponto simples = apenas um sucessor
Ponto de junção = mais de um sucessor
Caminho: sequência de pontos
Caminho maximal (ramo): caminho cujo último termo é um ponto final da árvore ou um caminho que é infinito
De C1, C2 e C3 segue para qualquer ponto x existe um único caminho Px, diz-se y domina x ou x é dominado por y, se x domina y e x ≠ y, então diremos que x está acima de y ou que y está abaixo de x. Diz que x é comparável com y se x domina y ou y domina x e que y está entre x e z se y está acima de um dos elementos do par {x, z} e abaixo do outro.
Árvore ordenada ‘T’
É a primeira árvore não ordenada junto com uma função 𝚹 que atribui cada ponto de junção z em uma sequência 𝚹 (z) de todos os sucessores de z.
Representamos árvores ordenadas situando a origem no topo e os sucessores de cada ponto x abaixo de xm e na ordem na qual eles aparecem da esquerda para a direita; traçamos um segmento de linha de x até y para indicar que y é um sucessor de x.
Uma árvore é finitamente gerada se cada ponto tem apenas um número finito de sucessores.
Se uma árvore ‘T’ tem um número finito de pontos então ela é finita, se não é infinita.
miércoles, 1 de mayo de 2019
Mike Pompeo
Alguém consegue me explicar por que Mike Pompeo sempre usa um rato em baixo do bigode? É para intimidar adversários políticos?
martes, 30 de abril de 2019
Markus Gabriel
Não concordo com quase nada do que disse esse senhor, mas fico feliz por ter um filósofo na capa do jornal
https://elpais.com/cultura/2019/04/17/actualidad/1555516749_100561.html
https://elpais.com/cultura/2019/04/17/actualidad/1555516749_100561.html
viernes, 19 de abril de 2019
Lista de autores analíticos
- Gottlob Frege
- Bertrand Russell
- G. E. Moore
- Ludwig Wittgenstein
- Willard Van Orman Quine
- Moritz Schlick
- J. L. Austin
- Daniel Dennett
- Donald Davidson
- John Rawls
- Alfred Tarski
- Karl Popper
- Edmund Gettier
- David Lewis
- Bertrand Russell
- G. E. Moore
- Ludwig Wittgenstein
- Willard Van Orman Quine
- Moritz Schlick
- J. L. Austin
- Daniel Dennett
- Donald Davidson
- John Rawls
- Alfred Tarski
- Karl Popper
- Edmund Gettier
- David Lewis
Lista de revistas acadêmicas de lógica
Lista de revistas acadêmicas de lógica:
- Journal of Mathematical Logic
- Journal of Logic and Computation
- Studia Logica
- Journal of Logical and Algebraic Methods in Programming
- Journal of Applied Non-Classical Logics
- Journal of Philosophical Logic
- Journal of Symbolic Logic
- Journal of Logic, Language and Information
- Archive for Mathematical Logic
- Notre Dame Journal of Formal Logic
- Logical Analysis and History of Philosophy
- Logica Universalis
- Nordic Journal of Philosophical Logic
- Bulletin of the Section of Logic
domingo, 31 de marzo de 2019
Das dúvidas sobre os prazeres
Não é necessário ser religioso para ter algumas dúvidas quanto aos prazeres. Tudo que retira dificuldades ou gera algum tipo de conforto nos faz dependentes. Como dizem: "com o bom é fácil se acostumar". Vide as família de classe média que quando perdem poder aquisitivo se endividam para manter o padrão de vida, por mais irracional e insustentável que seja essa situação.
jueves, 17 de enero de 2019
Vou tentar fazer um dossiê. Como eu estou de férias vou fazer com bom humor:
1) Comecemos com a FUNAG: ela é como se fosse a editora do Ministério das Relações Exteriores. (http://www.funag.gov.br/index.php/pt-br/funag). No site da FUNAG você pode baixar gratuitamente centenas de livros publicados pela fundação. Ou tem também a opção em comprá-los, pelo preço do papel. Nessa biblioteca digital (http://funag.gov.br/loja/index.php?route=product/category&path=62) tem desde a "guerra do Peloponeso" do Tucídides e o clássico "vinte anos de crise, até uma biografia do Oswaldo Aranha e um livro sobre as relações entre China e Brasil. Inclusive nessa biblioteca há o Caderno no qual está publicado aquele artigo "Trump e o Ocidente" do nosso querido Chanceler.
2) A FUNAG tinha uma série excelente chamada "manual do candidato", na qual elas publicam livros introdutórios às disciplinas do concurso dos diplomatas. Haviam livros de História do Brasil (http://funag.gov.br/loja/index.php?route=product/product&product_id=251), Noções de Direito (http://funag.gov.br/loja/index.php?route=product/product&product_id=119), História Mundial Contemporânea, (http://funag.gov.br/loja/index.php?route=product/product&product_id=120), geografia (http://funag.gov.br/loja/download/1014-Manual_do_candidato_-_Geografia.pdf), economia (http://funag.gov.br/loja/index.php?route=product/product&product_id=537), língua portuguesa, Inglês (http://funag.gov.br/loja/index.php?route=product/product&product_id=506), política internacional (http://funag.gov.br/loja/index.php?route=product/product&product_id=799).
Dá para perceber que todos os links estão fora do ar.
3) A questão começou quando o jornal O Globo [tirei uns prints da reportagem] publicou uma matéria com trechos da última página do livro, na qual o autor João Daniel Lima de Almeira dizia:
"Esquecidos salarialmente. Abandonados do ponto de vista dos equipamentos, armas e material bélico O
caso mais recente é a novela da compra dos caças que já
se arrasta há anos, na qual considerações políticas parecem se superpor às considerações técnicas e preferências
da Aeronáutica. Ridicularizados em suas posições políticas
anacrônicas. O clube militar que motivou a República, o tenentismo e debateu a questão do petróleo nos anos 50 é
retratado hoje como uma máquina do tempo, nostálgica e
excêntrica. O principal defensor dos interesses castrenses
no Congresso é um zelota do porte de Jair Bolsonaro, que
se orgulha de sua homofobia. Não poderiam estar em pior
situação desde o período regencial. Por terem se descolado do resto da sociedade desde o final do Regime Militar
foram relegados à irrelevância, posição profundamente
perigosa em um país com pretensões internacionais de
potência"
Essa é a ÚNICA referência ao Bolsonaro na página 581 do livro.
martes, 18 de diciembre de 2018
Economia
1) Economia brasileira:
4. Economia Política:
- Curso de Economia Política
- Curso de Economía Política
- Economia Política
- Economia Politica - Maria Conceicao Tavares
- Economia Política do Desenvolvimento da China
- Seminário Economia Política do Sistema-Mundo
- Economia Politica 2018 2019
- Presentaciones Economía Política de la Política Económica
- 16 Tesis de Economía Política por Enrique Dussel
- Curso de Economía Política
- Economia Política
- Economia Politica - Maria Conceicao Tavares
- Economia Política do Desenvolvimento da China
- Seminário Economia Política do Sistema-Mundo
- Economia Politica 2018 2019
- Presentaciones Economía Política de la Política Económica
- 16 Tesis de Economía Política por Enrique Dussel
2) Economia Internacional
- umh2169 - Economía Internacional
- Curso de Economia Internacional
- Economía internacional
World Economy / Economía Internacional - YouTube
- Curso de Economia Internacional
- Economía internacional
World Economy / Economía Internacional - YouTube
3. Macroeconomia:
- MACROECONOMÍA BÁSICA
- MODELO IS-LM [MACROECONOMÍA INTERMEDIA]
- Macroeconomia
- Macroeconomia
- Macroeconomía
- MODELO DE OFERTA Y DEMANDA AGREGADAS [MACROECONOMÍA INTERMEDIA]
- MODELO DE MUNDELL-FLEMING [MACROECONOMÍA INTERMEDIA]
- MODELO DE SOLOW [MACROECONOMÍA INTERMEDIA]
- MODELO IS-LM (ECONOMÍA CERRADA)
- CRECIMIENTO ECONÓMICO
- MODELO IS-LM [MACROECONOMÍA INTERMEDIA]
- Macroeconomia
- Macroeconomia
- Macroeconomía
- MODELO DE OFERTA Y DEMANDA AGREGADAS [MACROECONOMÍA INTERMEDIA]
- MODELO DE MUNDELL-FLEMING [MACROECONOMÍA INTERMEDIA]
- MODELO DE SOLOW [MACROECONOMÍA INTERMEDIA]
- MODELO IS-LM (ECONOMÍA CERRADA)
- CRECIMIENTO ECONÓMICO
2) Metodologia:
2. Microeconomia:
- TEORÍA DEL CONSUMIDOR [MICROECONOMÍA INTERMEDIA]
- TEORÍA DE LA PRODUCCIÓN [MICROECONOMÍA INTERMEDIA]
- Microeconomia
- Microeconomia
- Microeconomia
- Microeconomía
- INCERTIDUMBRE [MICROECONOMÍA INTERMEDIA]
- Microeconomía
- Exámenes resueltos de Microeconomía
- CRECIMIENTO ECONÓMICO ÓPTIMO
Aleatórios:
- I ESCUELA DE VERANO DE ECONOMÍA CRÍTICA
- TEORÍA DE LA PRODUCCIÓN [MICROECONOMÍA INTERMEDIA]
- Microeconomia
- Microeconomia
- Microeconomia
- Microeconomía
- INCERTIDUMBRE [MICROECONOMÍA INTERMEDIA]
- Microeconomía
- Exámenes resueltos de Microeconomía
- CRECIMIENTO ECONÓMICO ÓPTIMO
Aleatórios:
- I ESCUELA DE VERANO DE ECONOMÍA CRÍTICA
sábado, 10 de noviembre de 2018
Capítulo 4
Os capítulos 4 a 8 compõem o bloco concernente à parte intelectual da alma. É uma peça importante daquilo que seria uma teoria do intelecto de Aristóteles, a qual inclui não muitas outras passagens do corpus, das quais as principais são; Ética a Nicômaco VI, sobre as virtudes intelectuais; De Generatione Animalium II, 3, sobre o nous e embriões; Metafísica I, 1, e Segundos Analíticos II, 19, sobre a relação entre intelecto, memória e percepção sensível e, por fim, Metafísica XII sobre o primeiro motor imóvel. O tratamento que Aristóteles dispensa ao intelecto no De Anima revela certas anomalias ante o programa de investigação que estava em andamento. As capacidades vinham sendo examinadas das mais às menos gerais: primeiro a nutrição e a reprodução, que pertence a todos os animais. Era então de se esperar que a capacidade de locomoção, compartilhada pela grande maioria dos animais, fosse abordada antes que o intelecto, subsistente em poucos. A mudança de ordem talvez tenha a ver com o fato de existir alguma vantagem em tratar, lado a lado, as duas capacidades de discriminar objetos, principalmente em vista do problema que guia toda a discussão - saber qual a natureza da distinção, se é que há alguma, entre percepção sensível e intelecto. A segunda anomalia desse bloco é não começar pelo exame do objeto correlato - os inteligíveis - como ele tinha recomendado proceder [415a20-2]. E a razão talvez seja que é mais difícil compreender, nesse caso, o objeto que a atividade propriamente dita e a parte da alma responsável por ela.
O tema do capítulo é o intelecto passivo [nous pathêtikos], como dirá Aristóteles no próximo capítulo [430a24], que foi exaustivamente estudado pelos comentadores antigos. O capítulo divide-se em três partes principais. Aristóteles, primeiro, levanta duas questões a serem respondidas: uma, quanto à separação do intelecto, e outra, sobre como ocorre o pensar. Apresenta, a seguir, três argumentos para provar que o intelecto é separado, vale dizer, distinto da percepção sensível e desprovido de um órgão sensorial. Em seguida, distingue a atividade intelectual de discriminar a forma de um composta daquela de discriminar a sua, digamos, essência. Por fim, Aristóteles apresenta, e soluciona, dois impasses decorrentes de sua exposição.
429a10. O verbo conhecer [ginôskei] designa o aspecto mais teórico da atividade intelectual, e o verbo entender [phronei], seu aspecto mais prático, ambos voltados para objetos. Mas cabe sublinhar que conhecer não é uma atividade exclusiva do intelecto, e o termo tem ao menos uma ocorrência em que está ligado à atividade dos sentidos [GA 731a33]. Nesta passagem, é justamente a adição de phronei que distingue, ao que parece, o intelecto do sentido [427b6 ss.].
A primeira questão levantada - se o intelecto é uma parte efetivamente separada ou se é separável apenas em abstração - deve ser interpretada no sentido de saber se o intelecto é ou não uma das partes separada das demais capacidades da alma. Tendo apontado que as capacidades da alma são inseparáveis do corpo, Aristóteles frequentemente faz reservas quanto ao intelecto. Em 403a3-10, por exemplo, aponta que, na maioria dos casos, as ações e afecções da alma não ocorrem independentemente do corpo, embora o pensar pareça peculiar só à alma; caso nem mesmo isso ocorra sem imagens mentais, então o pensamento não seria independente do corpo. Em 423b24-7, ele observa que o intelecto e a potência teórica da alma parecem ser de um outro gênero, e só o intelecto admite, tal como o eterno, separar-se do corruptível.
Aristóteles, em suma, retoma a questão com que se ocupou nos capítulos anteriores deste terceiro livro, a qual consiste em saber se o intelecto é ou não uma parte efetivamente separada da percepção sensível ou se elas são apenas distintas em abstração.
429a13. Nesta passagem, Aristóteles apresenta dois argumentos para mostrar que o intelecto é separável, ou seja, uma parte distinta da percepção sensível. Os dois processos (pensar e perceber) - que, de acordo com 427b27, não são idênticos - serão assumidos, contudo, como análogos. Aristóteles sugere que a atividade do intelecto consiste em captar as formas inteligíveis, da mesma maneira que a percepção sensível consiste em receber as formas sensíveis sem a matéria. Com base nisso, sustenta que o intelecto deve ser apathes - impassível, isto é, não afetado - para não alterar as formas que apreende. O ponto foi apresentado por Platão em Timeu 50a-51a. E, tanto em um caso como em outro, a expressão paskhein ti significa não uma destruição pelo oposto (como no caso do calor, que, sendo afetado pelo frio, é destruído, dando lugar ao contrário), mas seguramente a passagem da potência à atividade.
A analogia entre sentido e intelecto, contudo, deve ser levada com cautela: o intelecto, como veremos, não tem órgão físico; o objeto inteligível, de certa maneira, está na própria alma, e por isso a análise em paralelo do intelecto e dos sentidos é imperfeita. A expressão sofrer algo é ambígua, e sofre algo pela sensibilidade é diferente de sofrer algo para o pensamento. De fato, Aristóteles é mais lacônico do que se esperaria no detalhamento das diferenças entre os dois.
Em outras palavras, nada tendo sofrido e sendo totalmente destituído daqueles objetos que tem de receber, o intelecto também não poderá ser afetado por eles em sua própria natureza, quando os tiver recebido (cf. CH, p. 476). Para que possa ser receptivo da forma, o intelecto deve ser não afetado e impassível. O primeiro argumento [a13-24[ pode ser assim reconstituído:
pensar é como perceber, no sentido de perceber a forma do que é pensado sem a matéria, e de tornar-se, de alguma maneira, semelhante a ela;
se o que pensa já tiver uma forma, não será possível que adquira forma alheia;
não há nada que não se possa pensar;
logo, o que pensa não tem qualquer forma, exceto esta: ser potencial, isto é, capaz de receber formas.
Foram apontados alguns problemas neste raciocínio. A primeira e terceira premissas parecem questionáveis: de que maneira o que pensa se torna semelhante a forma pensada? Aristóteles havia prometido explicar como ocorre a forma pensamento, mas dizer simplesmente que pensar é receber a forma do pensado parece não dar conta do recado. Cf. Charlton, “Aristotle on the Place of Mind in Nature”.
O intelecto precisa ser ainda amigê - sem mistura [a18] -, como disse Anaxágoras. Isto é, não misturado aos próprios objetos de cognição. Alguns intérpretes antigos suplementaram o termo: “o intelecto não é misturado à matéria”. Contudo, “parece mais razoável que Aristóteles primeiro chame atenção para os atributos em que intelecto e sentido concordam, antes de passar às suas não-similaridades” (cf. CH, p. 477). Sendo assim, amigês aproxima-se do significado de apathês, e até a linha a24 - “por isso, é razoável que tampouco ele seja misturado ao corpo” - o que está em jogo é a relação do intelecto com seus objetos. Só a partir deste ponto é que Aristóteles se ocupará da relação entre intelecto e matéria. Aristóteles apresenta agora um segundo argumento para provar que o nous é separável do corpo [a24-9]. Pois, se fosse misturado ao que é corpóreo, o nous seria dotado de alguma qualidade - por exemplo, teria uma certa temperatura - e disporia de um órgão corpóreo específico para o pensamento - e se o cérebro tem algum papel, para Aristóteles, este se liga principalmente à refrigeração do corpo. Msa isso não parece provar que o pensar independa de todo de eventos fisiológicos. Como ele mesmo havia apontado, se o pensamento requer imagens mentais, então nem mesmo ele ocorreria sem o corpo.
Se o intelecto fosse material, não poderia receber simultaneamente a forma do calor e a forma do frio; se fosse imaterial como a sensibilidade, mas dotado como ela de um órgão corporal, o estado desse órgão impediria de receber as formas em sua pureza e mesmo apanhar algumas delas, assim como a constituição física do tato o torna impróprio à percepção de certas temperaturas [...] (cf. CRod, p. 439).
Mas as implicações últimas do argumento talvez tenham sido captadas por Hicks: uma coisa incorporal pode ser dita per acidens misturada ao corpo, e essa extensão imprópria do termo mistura pode ser usada para denotar a união da forma e da matéria na coisa concreta. É nesse sentido que Aristóteles nega ao intelecto mistura com o corpo. Como parte da alma, o intelecto reside no corpo todo e usa-o como seu órgão. Se não exatamente “misturado ao” corpo, o intelecto é, em todos os eventos, dependente do corpo, sem o qual ele não poderia ser suplementado com imagens mentais. Deve ser, portanto, em relação a suas operações que estamos considerando a questão da mistura ou não-mistura com o corpo. A recepção das formas que constitui o pensar deve ocorrer sem a intervenção do corpo (cf. CH, p. 481).
429a29. A linha geral deste terceiro argumento seria a seguinte: um objeto perceptível muito forte atua sobre o órgão de maneira que tende a destruí-lo; se objeto inteligível, seu excesso produziria resultado similar. Mas não é o caso; logo, o intelecto é separável, isto é, existe independentemente do órgão físico.
Em suma, o intelecto deve ser não misturado a nada, já que pensa tudo. E assim, de acordo com Aristóteles, o intelecto é em potência tal como todas as coisas, mas, em ato, absolutamente nenhuma delas. A concepção do intelecto como pura potencialidade, nesse sentido, é uma consequência direta de sua ideia de que é possível pensar todas as coisas. Contudo, há pontos obscuros sobre o status do intelecto: como é possível que ele seja potencialidade de órgão nenhum, isto é, em relação a essa parte da alma, o que significa exatamente o termo noêtikon - intelectivo ou capaz de pensar -, se não é capacidade de um órgão corporal? “O melhor que se pode dizer é que a capacidade ou potencialidade em questão concerne ao homem todo e é dependente das outras faculdades que têm órgãos” (cf. CHa, p. 136).
Tendo apontado nesta primeira diferença - o intelecto não é capacidade de um órgão corporal -, Aristóteles mostra uma diferença em b6-10. Em relação ao intelecto, é preciso distinguir dois graus de potência: o intelecto, por um lado, é uma dynamis ou potência - por exemplo, no sentido em que toda e qualquer criança tem capacidade intelectual de aprender a ler por fazer parte do gênero humano. Mas o intelecto, por outro lado, também é uma potência no sentido de que é uma disposição ou habilidade intelectual adquirida que pode entrar em atividade tão logo o próprio sujeito que dela dispõe decida - por exemplo, como dizemos que tem potência para ler aquele que já foi alfabetizado, embora eventualmente não esteja no pleno exercício da leitura.
Em outras palavras, no caso do intelecto, a potencialidade se dá em duas etapas, as quais correspondem respectivamente a dynamis e hexis. No caso da percepção sensível, por sua vez, os animais já vêm “instruídos” pelo genitor [417a16 ss.]: e não precisamos aprender a ver para dispormos da visão quando quisermos. Porém, sem termos sido instruídos, não temos à nossa disposição, por exemplo, a habilidade de calcular ou ler.
Aristóteles distingue, ainda, potências irracionais - por exemplo, o quente é só capaz de aquecer - de potências racionais - por exemplo, a capacidade do médico de tanto pode curar como adoecer. A percepção sensível é uma potência irracional a medida em que é um capacidade para uma mudança natural em apenas uma direção dada. O intelecto é uma potência racional, pois é uma capacidade para opostos (por exemplo, tanto para o vício como para a virtude: e é por treino e atividade que se elimina a disposição de um deles e se reforça a outra).
A distinção dynamis/hexis/energeia é apresentada em Fis. VIII, 4, em Met. V, 20. A hexis é um substantivo formado a partir de verbo ekhô - ter -, e indica o ato de possuir. Se entre o que produz e o que é produzido encontra-se a produção [poiêsis], da mesma maneira encontra-se, entre o que tem e aquilo que é tido, a hexis ou ação de posse, a qual, por sua vez, é oposta à privação [sterêsis]. “Hexis, em um segundo sentido, é uma certa disposição [diathesis] segundo o qual se está ou bem ou mal disposto” [Met. 1022b10-4]. A saúde e a virtude são uma certa hexis.
429b10. Nesta segunda parte, está em jogo a distinção entre a intelecção da forma - que é levada a cabo pelos sentidos e pelo intelecto - e a intelecção, digamos, da essência e, para usar a locução empregada pelo próprio Aristóteles, “do que é ser o que é”, que é uma realização exclusivamente intelectual. Aristóteles lança mão da distinção entre a forma realizada na matéria e a essência, para mostrar que o intelecto é uma parte da alma separada das demais.
Alguns comentadores modernos tomam essa distinção como entre a coisa concreta - apreendida pelos sentidos - e a forma, essência ou quididade. Já que conhecemos a carne e coisas semelhantes pelo sentida e as formas ou quididades pelo intelecto, Aristóteles parece discutir a seguinte questão: são os sentidos e o intelecto diferentes ou é a mesma faculdade em atitudes diferentes? A diferença entre as duas faculdades foi assumida o tempo todo (e.g. 413b24 ss., 414b16ss.) com base no facto de que os animais possuem sensação, mas não intelecto. É possível que Aristóteles esteja retomando a questão, deixada inconclusa em 429a1l de saber qual é o tipo ou grau de separação entre o intelecto e o resto das faculdades. Poderia parecer que o intelecto é, depois de tudo, apenas os sentidos em uma diferente relação, pois algumas considerações favorecem tal visão. Ao longo do tratado, Aristóteles esteve sempre hostil à aceitação de distintas partes da alma e onde ele aceita isso como uma hipótese de trabalho é sobre protesto, como , por exemplo, em 432a22 ss. A unidade essencial da alma é enfatizada sempre [...]. Além disso, em outros textos, ele aproxima sentido e pensamento [P. Anal. 100a7, Met. 1087a19, EN 1143a35 ss.], cf. CH, p. 487.
Rodier tentou uma explicação diferente. Ele assume que carne é um termo ambíguo, pois se refere tanto (a) à carne particular, que é conhecida pelos sentidos, como (b) à carne universal, que é conhecida pelo intelecto. No caso (a), a carne e sua quididade são julgadas por duas faculdades diferentes; no caso (b) a carne e sua quididade são discernidas pela mesma faculdade, a saber, o intelecto em duas atitudes distintas. Cf. CRod, p. 448.
O fato é que nem os comentadores antigos, nem os modernos, conseguiram dar uma explicação satisfatória para esta passagem. A mais geralmente seguida é a de Themistius: para capturar as formas separadas, o intelecto se basta; para capturar as formas com a sua matéria, o intelecto precisa de percepção sensível. Quando o intelecto conhece as formas em si mesma, ele é simples como a linha reta, e quando ele captura as coisas - matéria e forma -, ele é composto tal como a linha quebrada, Cf. CRod, p. 445.
O mais correto, por conseguinte, será dizer que é a mesma faculdade que captura as formas puras e as formas realizadas na matéria, mas que ela não se comporta igualmente nos dois casos.
Na minha maneira de ver, a passagem é mais compreensível seguindo o sentido que lhe deram os antigos. A grandeza, a água e a carne - bem como o adunco - não são, parece-me, apreendidas exclusivamente pelos sentidos. A teoria aristotélica da percepção sensível é clara neste ponto: os sentidos recebem as qualidades que lhe são correlatas, como a cor, o som, a temperatura etc.; mas que algo é carne, grandeza, água, isto apenas acidentalmente se apreende pelos sentidos, e é o intelecto, por meio deles, que captura tais noções. A forma será, então, algo apreendido pela cooperação entre sentidos e intelecto. A forma, por sua vez, inclui certas características gerais, mas não é idêntica à essência (a forma do homem realizada em uma matéria determinada inclui, por exemplo, um certo sexo, que não é uma característica acidental da mesma natureza que ser um músico ou ser filho de beltrano). A essência do homem, por outra lado, exclui essa característica formal e é ainda mais abstrata. Ela é uma noção morfológica e compreende somente aquela características relevantes a uma explicação teleológica [Met. 1058b2; GA 778a29, b19; PA 640a33-b4].
429b18. A mesma distinção feita no parágrafo anterior - entre intelecção da forma e intelecção da essência - é agora aplicada às entidades matemática, que parecem puras abstrações, mas são tal como o adunco e não têm existência separada. Porém, há uma diferença entre a matéria perceptível do adunco e a matéria inteligível da reta [Met. 1036a4-12]. A reta pode ser analisada em dois aspectos logicamente distintos: o material, em que é algo que existe como comprimento e contínuo (no espaço), e o formal, em que é uma dualidade e aquilo que se estende de um ponto a outro. Sobre a não-existência independente das entidades matemáticas, ver ainda Metafísica VI, 1.
Nessas condições, é claro que o intelecto lida com diversos graus de separação entre forma e matéria, e este parece ser o sentido da última frase.
429b22. São apresentados os dois problemas que ainda pedem solução: (1) como o intelecto pode pensar, sendo simples e não afetado, como pretende Anaxágoras, se o pensar é justamente uma maneira de afetação pelo inteligível? (2) será o próprio intelecto um objeto inteligível a si mesmo? Aqui está em jogo o mesmo problema colocado anteriormente para a sensibilidade no que diz respeito à percepção do próprio ato de percepção sensível. Mas isso parece apresentar um dilema. Se o intelecto pensa a si mesmo, é por ser inteligível. Ora, se tudo o que é inteligível é idêntico em forma, isto é, se a inteligibilidade do intelecto é igual à de outra inteligível qualquer, então temos duas possibilidades: ou os outros inteligíveis também seriam intelectos que podem pensar a si mesmos, ou haveria algo misturado ao intelecto, diferenciando-o dos demais inteligíveis. Neste caso, contudo, seria inadequado pretender que o intelecto é algo simples e sem mistura.
429b29. A passagem é excessivamente sucinta e os comentadores sentiram necessidade de suplementá-la de alguma maneira. Todavia, o sentido deste parágrafo final é relativamente claro, e Aristóteles pretende apresentar possíveis soluções para os dois problemas levantados nos parágrafo anterior. Para lidar com o primeiro, ele repete, aproximadamente, o mesmo esquema que empregou para a percepção sensível: o intelecto antes de pensar é somente em potência os inteligíveis e nada em atualidade.
Cabe notar que a teoria aristotélica do intelecto que está sendo construída é radicalmente distinta da noção platônica de reminiscência. Segundo Platão, os verdadeiros objetos do conhecimento são formas que não podem ser capturadas pela percepção sensível. Sem dúvida, a percepção sensível oferece a oportunidade e o estímulo para que a alma tenha uma recordação das formas que contemplou antes de encarnar. O papel da sensação na aquisição do conhecimento é apenas o de ajudar o intelecto a resgatar as formas exatas que a alma traz em si e que constituem os princípios da ordem do mundo. Para Aristóteles, por sua vez, o intelecto deve ser apto a receber inscrições, tal como uma tabuleta onde nada está escrito em ato e tudo potencialmente poderá ver a ser escrito. Esta é a força, a meu ver, da imagem escolhida por ele para descrever a potencialidade do intelecto. Mas é preciso cautela na analogia: a tabuleta não representa literalmente o intelecto, na medida em que ela é algo efetivamente existente (e o intelecto, por sua vez, é mera potencialidade), o que ambos têm em comum é a aptidão para receber inscrições.
O segundo dilema - que na verdade envolve a distinção entre o que é ser para o intelecto e o que é ser para o inteligível - dissolve-se na medida em que não é verdadeiro afirmar que o inteligível é uno em espécie. As coisas materiais, embora sejam inteligíveis, tanto quanto o intelecto, só são inteligíveis em potência, e não são justamente por isso intelectos. Pois não é com inteligíveis em potência, mas com inteligíveis em atualidade, que o intelecto é idêntico no processo de pensar. O inteligível, referido nesta passagem como o que é independente de matéria, é aquilo que no próximo capítulo será examinado como adeareton; em relação a ele, Aristóteles dirá que não cabe o falso ou verdadeiro, mas algo como captar ou não captar, ocorrer opressão ou não ocorrer - como é o caso da percepção do objeto sensível próprio a cada sentido. Ele lança, por fim, um novo item em sua pauta: é preciso investigar a razão de o intelecto não estar o tempo todo pensando.
Para uma interpretação arrojada que subverte a maneira tradicional de aplicar as distinções entre dynamis, hexis e energeia à parte intelectual da alma - isto é, [a] a potencialidade intelectual do gênero humano, [b] aquela de um indivíduo que já dispõe do conhecimento da gramática e [c] a atividade de pensar propriamente dita -, ver Zingano, Razão e sensação em Aristóteles. Sua (sedutora) estratégia, em poucas palavras, consiste em inverter, de certa maneira os aspectos [b] e [c]: pensar será, então, primeiramente a atividade de produzir inteligíveis e, secundariamente, dispor e ter em potência os inteligíveis já pensados. Ela, por um lado, resolveria (a favor do estagirita) uma querela (por demais abrangente) que se arrastou, sobretudo entre os franceses, a respeito da avaliação do avaliação do esforço de Aristóteles de substituir o idealismo platônico por uma teoria do intelecto. Além disso, acentua a distinção entre a percepção sensível e o pensamento - buscada, sem dúvida, por Aristóteles - e emprega um surpreendente método contrastivo (apresentado em Tópicos) que permite comparações dentro de um mesmo gênero, e que estaria em jogo também em De Anima III, 4-5 (já que tanto uma como a outra são partes da alma do gênero discriminativo). A interpretação, contudo, requer alterações discutíveis no estabelecimento do texto e o recurso não menos polêmica a uma hipótese de cunho geneticista.
Capítulo 5
Este é o célebre capítulo em que Aristóteles distingue o aspecto passivo do intelecto, tal como foi exposto no capítulo anterior, do aspecto ativo, para o qual a hermenêutica acadêmica criou a expressão nous poiêtikos. Vale observar que o próprio Aristóteles não usa o termo consagrado pelos intérpretes, de maneira que é recomendável alguma cautela para não cindir a unidade do intelecto mais do que o permitido por essa distinção de caráter metafísico.
Aristóteles, no capítulo anterior, sustentou as seguintes teses, que agora são explicitamente atribuídas ao nous pathêtikos [430a24]: (a) ele é inteiramente não afetado e não misturado a seus objetos, e por isso pode pensar tudo; (b) seu objeto (o inteligível) é a forma-substância, que ou se encontra separada em ato, ou esetá misturada aos objetos sensíveis compostos; e © o intelecto em atividade é idêntico a seu objeto em atividade, além de (d) desprovido de um órgão corporal específico. Tudo isso sugere que, nesta modalidade de recepção do objeto, a mente se torna inteiramente conformada ao que está sendo conhecido. Neste capítulo, por sua vez, o aspecto do nous que pode assim se tornar todo e qualquer inteligível é distinguido daquele que pode produzi-los (similar a uma arte [a7]): ele primeiro é descrito como uma hexis (similar à luz [a15]) e, depois, como uma energeia [a18].
O texto do capítulo, segundo Ross, pode ter sofrido perda de partes importantes, embora seu estado de conservação não seja tão ruim quanto o do capítulo 6. Sua concisão é quase enervante, Aristóteles é mais alusivo do que de costume, como se tivesse escrito às pressas - o que seguramente não deve ser o caso. Os comentadores insistem demais, talvez por esse motivo, na estreita conexão dessa passagem do De Anima com a Metafísica XII (livro lambda), cap. 6 e 9. Para uma breve exposição das interpretações dos comentadores antigos sobre o nous poietikos, ver Brentano, “Nous poiêtikos: survey of earlier interpretations”.
430a10.
Capítulo 4
Os capítulos 4 a 8 compõem o bloco concernente à parte intelectual da alma. É uma peça importante daquilo que seria uma teoria do intelecto de Aristóteles, a qual inclui não muitas outras passagens do corpus, das quais as principais são; Ética a Nicômaco VI, sobre as virtudes intelectuais; De Generatione Animalium II, 3, sobre o nous e embriões; Metafísica I, 1, e Segundos Analíticos II, 19, sobre a relação entre intelecto, memória e percepção sensível e, por fim, Metafísica XII sobre o primeiro motor imóvel. O tratamento que Aristóteles dispensa ao intelecto no De Anima revela certas anomalias ante o programa de investigação que estava em andamento. As capacidades vinham sendo examinadas das mais às menos gerais: primeiro a nutrição e a reprodução, que pertence a todos os animais. Era então de se esperar que a capacidade de locomoção, compartilhada pela grande maioria dos animais, fosse abordada antes que o intelecto, subsistente em poucos. A mudança de ordem talvez tenha a ver com o fato de existir alguma vantagem em tratar, lado a lado, as duas capacidades de discriminar objetos, principalmente em vista do problema que guia toda a discussão - saber qual a natureza da distinção, se é que há alguma, entre percepção sensível e intelecto. A segunda anomalia desse bloco é não começar pelo exame do objeto correlato - os inteligíveis - como ele tinha recomendado proceder [415a20-2]. E a razão talvez seja que é mais difícil compreender, nesse caso, o objeto que a atividade propriamente dita e a parte da alma responsável por ela.
O tema do capítulo é o intelecto passivo [nous pathêtikos], como dirá Aristóteles no próximo capítulo [430a24], que foi exaustivamente estudado pelos comentadores antigos. O capítulo divide-se em três partes principais. Aristóteles, primeiro, levanta duas questões a serem respondidas: uma, quanto à separação do intelecto, e outra, sobre como ocorre o pensar. Apresenta, a seguir, três argumentos para provar que o intelecto é separado, vale dizer, distinto da percepção sensível e desprovido de um órgão sensorial. Em seguida, distingue a atividade intelectual de discriminar a forma de um composta daquela de discriminar a sua, digamos, essência. Por fim, Aristóteles apresenta, e soluciona, dois impasses decorrentes de sua exposição.
429a10. O verbo conhecer [ginôskei] designa o aspecto mais teórico da atividade intelectual, e o verbo entender [phronei], seu aspecto mais prático, ambos voltados para objetos. Mas cabe sublinhar que conhecer não é uma atividade exclusiva do intelecto, e o termo tem ao menos uma ocorrência em que está ligado à atividade dos sentidos [GA 731a33]. Nesta passagem, é justamente a adição de phronei que distingue, ao que parece, o intelecto do sentido [427b6 ss.].
A primeira questão levantada - se o intelecto é uma parte efetivamente separada ou se é separável apenas em abstração - deve ser interpretada no sentido de saber se o intelecto é ou não uma das partes separada das demais capacidades da alma. Tendo apontado que as capacidades da alma são inseparáveis do corpo, Aristóteles frequentemente faz reservas quanto ao intelecto. Em 403a3-10, por exemplo, aponta que, na maioria dos casos, as ações e afecções da alma não ocorrem independentemente do corpo, embora o pensar pareça peculiar só à alma; caso nem mesmo isso ocorra sem imagens mentais, então o pensamento não seria independente do corpo. Em 423b24-7, ele observa que o intelecto e a potência teórica da alma parecem ser de um outro gênero, e só o intelecto admite, tal como o eterno, separar-se do corruptível.
Aristóteles, em suma, retoma a questão com que se ocupou nos capítulos anteriores deste terceiro livro, a qual consiste em saber se o intelecto é ou não uma parte efetivamente separada da percepção sensível ou se elas são apenas distintas em abstração.
429a13. Nesta passagem, Aristóteles apresenta dois argumentos para mostrar que o intelecto é separável, ou seja, uma parte distinta da percepção sensível. Os dois processos (pensar e perceber) - que, de acordo com 427b27, não são idênticos - serão assumidos, contudo, como análogos. Aristóteles sugere que a atividade do intelecto consiste em captar as formas inteligíveis, da mesma maneira que a percepção sensível consiste em receber as formas sensíveis sem a matéria. Com base nisso, sustenta que o intelecto deve ser apathes - impassível, isto é, não afetado - para não alterar as formas que apreende. O ponto foi apresentado por Platão em Timeu 50a-51a. E, tanto em um caso como em outro, a expressão paskhein ti significa não uma destruição pelo oposto (como no caso do calor, que, sendo afetado pelo frio, é destruído, dando lugar ao contrário), mas seguramente a passagem da potência à atividade.
A analogia entre sentido e intelecto, contudo, deve ser levada com cautela: o intelecto, como veremos, não tem órgão físico; o objeto inteligível, de certa maneira, está na própria alma, e por isso a análise em paralelo do intelecto e dos sentidos é imperfeita. A expressão sofrer algo é ambígua, e sofre algo pela sensibilidade é diferente de sofrer algo para o pensamento. De fato, Aristóteles é mais lacônico do que se esperaria no detalhamento das diferenças entre os dois.
Em outras palavras, nada tendo sofrido e sendo totalmente destituído daqueles objetos que tem de receber, o intelecto também não poderá ser afetado por eles em sua própria natureza, quando os tiver recebido (cf. CH, p. 476). Para que possa ser receptivo da forma, o intelecto deve ser não afetado e impassível. O primeiro argumento [a13-24[ pode ser assim reconstituído:
pensar é como perceber, no sentido de perceber a forma do que é pensado sem a matéria, e de tornar-se, de alguma maneira, semelhante a ela;
se o que pensa já tiver uma forma, não será possível que adquira forma alheia;
não há nada que não se possa pensar;
logo, o que pensa não tem qualquer forma, exceto esta: ser potencial, isto é, capaz de receber formas.
Foram apontados alguns problemas neste raciocínio. A primeira e terceira premissas parecem questionáveis: de que maneira o que pensa se torna semelhante a forma pensada? Aristóteles havia prometido explicar como ocorre a forma pensamento, mas dizer simplesmente que pensar é receber a forma do pensado parece não dar conta do recado. Cf. Charlton, “Aristotle on the Place of Mind in Nature”.
O intelecto precisa ser ainda amigê - sem mistura [a18] -, como disse Anaxágoras. Isto é, não misturado aos próprios objetos de cognição. Alguns intérpretes antigos suplementaram o termo: “o intelecto não é misturado à matéria”. Contudo, “parece mais razoável que Aristóteles primeiro chame atenção para os atributos em que intelecto e sentido concordam, antes de passar às suas não-similaridades” (cf. CH, p. 477). Sendo assim, amigês aproxima-se do significado de apathês, e até a linha a24 - “por isso, é razoável que tampouco ele seja misturado ao corpo” - o que está em jogo é a relação do intelecto com seus objetos. Só a partir deste ponto é que Aristóteles se ocupará da relação entre intelecto e matéria. Aristóteles apresenta agora um segundo argumento para provar que o nous é separável do corpo [a24-9]. Pois, se fosse misturado ao que é corpóreo, o nous seria dotado de alguma qualidade - por exemplo, teria uma certa temperatura - e disporia de um órgão corpóreo específico para o pensamento - e se o cérebro tem algum papel, para Aristóteles, este se liga principalmente à refrigeração do corpo. Msa isso não parece provar que o pensar independa de todo de eventos fisiológicos. Como ele mesmo havia apontado, se o pensamento requer imagens mentais, então nem mesmo ele ocorreria sem o corpo.
Se o intelecto fosse material, não poderia receber simultaneamente a forma do calor e a forma do frio; se fosse imaterial como a sensibilidade, mas dotado como ela de um órgão corporal, o estado desse órgão impediria de receber as formas em sua pureza e mesmo apanhar algumas delas, assim como a constituição física do tato o torna impróprio à percepção de certas temperaturas [...] (cf. CRod, p. 439).
Mas as implicações últimas do argumento talvez tenham sido captadas por Hicks: uma coisa incorporal pode ser dita per acidens misturada ao corpo, e essa extensão imprópria do termo mistura pode ser usada para denotar a união da forma e da matéria na coisa concreta. É nesse sentido que Aristóteles nega ao intelecto mistura com o corpo. Como parte da alma, o intelecto reside no corpo todo e usa-o como seu órgão. Se não exatamente “misturado ao” corpo, o intelecto é, em todos os eventos, dependente do corpo, sem o qual ele não poderia ser suplementado com imagens mentais. Deve ser, portanto, em relação a suas operações que estamos considerando a questão da mistura ou não-mistura com o corpo. A recepção das formas que constitui o pensar deve ocorrer sem a intervenção do corpo (cf. CH, p. 481).
429a29. A linha geral deste terceiro argumento seria a seguinte: um objeto perceptível muito forte atua sobre o órgão de maneira que tende a destruí-lo; se objeto inteligível, seu excesso produziria resultado similar. Mas não é o caso; logo, o intelecto é separável, isto é, existe independentemente do órgão físico.
Em suma, o intelecto deve ser não misturado a nada, já que pensa tudo. E assim, de acordo com Aristóteles, o intelecto é em potência tal como todas as coisas, mas, em ato, absolutamente nenhuma delas. A concepção do intelecto como pura potencialidade, nesse sentido, é uma consequência direta de sua ideia de que é possível pensar todas as coisas. Contudo, há pontos obscuros sobre o status do intelecto: como é possível que ele seja potencialidade de órgão nenhum, isto é, em relação a essa parte da alma, o que significa exatamente o termo noêtikon - intelectivo ou capaz de pensar -, se não é capacidade de um órgão corporal? “O melhor que se pode dizer é que a capacidade ou potencialidade em questão concerne ao homem todo e é dependente das outras faculdades que têm órgãos” (cf. CHa, p. 136).
Tendo apontado nesta primeira diferença - o intelecto não é capacidade de um órgão corporal -, Aristóteles mostra uma diferença em b6-10. Em relação ao intelecto, é preciso distinguir dois graus de potência: o intelecto, por um lado, é uma dynamis ou potência - por exemplo, no sentido em que toda e qualquer criança tem capacidade intelectual de aprender a ler por fazer parte do gênero humano. Mas o intelecto, por outro lado, também é uma potência no sentido de que é uma disposição ou habilidade intelectual adquirida que pode entrar em atividade tão logo o próprio sujeito que dela dispõe decida - por exemplo, como dizemos que tem potência para ler aquele que já foi alfabetizado, embora eventualmente não esteja no pleno exercício da leitura.
Em outras palavras, no caso do intelecto, a potencialidade se dá em duas etapas, as quais correspondem respectivamente a dynamis e hexis. No caso da percepção sensível, por sua vez, os animais já vêm “instruídos” pelo genitor [417a16 ss.]: e não precisamos aprender a ver para dispormos da visão quando quisermos. Porém, sem termos sido instruídos, não temos à nossa disposição, por exemplo, a habilidade de calcular ou ler.
Aristóteles distingue, ainda, potências irracionais - por exemplo, o quente é só capaz de aquecer - de potências racionais - por exemplo, a capacidade do médico de tanto pode curar como adoecer. A percepção sensível é uma potência irracional a medida em que é um capacidade para uma mudança natural em apenas uma direção dada. O intelecto é uma potência racional, pois é uma capacidade para opostos (por exemplo, tanto para o vício como para a virtude: e é por treino e atividade que se elimina a disposição de um deles e se reforça a outra).
A distinção dynamis/hexis/energeia é apresentada em Fis. VIII, 4, em Met. V, 20. A hexis é um substantivo formado a partir de verbo ekhô - ter -, e indica o ato de possuir. Se entre o que produz e o que é produzido encontra-se a produção [poiêsis], da mesma maneira encontra-se, entre o que tem e aquilo que é tido, a hexis ou ação de posse, a qual, por sua vez, é oposta à privação [sterêsis]. “Hexis, em um segundo sentido, é uma certa disposição [diathesis] segundo o qual se está ou bem ou mal disposto” [Met. 1022b10-4]. A saúde e a virtude são uma certa hexis.
429b10. Nesta segunda parte, está em jogo a distinção entre a intelecção da forma - que é levada a cabo pelos sentidos e pelo intelecto - e a intelecção, digamos, da essência e, para usar a locução empregada pelo próprio Aristóteles, “do que é ser o que é”, que é uma realização exclusivamente intelectual. Aristóteles lança mão da distinção entre a forma realizada na matéria e a essência, para mostrar que o intelecto é uma parte da alma separada das demais.
Alguns comentadores modernos tomam essa distinção como entre a coisa concreta - apreendida pelos sentidos - e a forma, essência ou quididade. Já que conhecemos a carne e coisas semelhantes pelo sentida e as formas ou quididades pelo intelecto, Aristóteles parece discutir a seguinte questão: são os sentidos e o intelecto diferentes ou é a mesma faculdade em atitudes diferentes? A diferença entre as duas faculdades foi assumida o tempo todo (e.g. 413b24 ss., 414b16ss.) com base no facto de que os animais possuem sensação, mas não intelecto. É possível que Aristóteles esteja retomando a questão, deixada inconclusa em 429a1l de saber qual é o tipo ou grau de separação entre o intelecto e o resto das faculdades. Poderia parecer que o intelecto é, depois de tudo, apenas os sentidos em uma diferente relação, pois algumas considerações favorecem tal visão. Ao longo do tratado, Aristóteles esteve sempre hostil à aceitação de distintas partes da alma e onde ele aceita isso como uma hipótese de trabalho é sobre protesto, como , por exemplo, em 432a22 ss. A unidade essencial da alma é enfatizada sempre [...]. Além disso, em outros textos, ele aproxima sentido e pensamento [P. Anal. 100a7, Met. 1087a19, EN 1143a35 ss.], cf. CH, p. 487.
Rodier tentou uma explicação diferente. Ele assume que carne é um termo ambíguo, pois se refere tanto (a) à carne particular, que é conhecida pelos sentidos, como (b) à carne universal, que é conhecida pelo intelecto. No caso (a), a carne e sua quididade são julgadas por duas faculdades diferentes; no caso (b) a carne e sua quididade são discernidas pela mesma faculdade, a saber, o intelecto em duas atitudes distintas. Cf. CRod, p. 448.
O fato é que nem os comentadores antigos, nem os modernos, conseguiram dar uma explicação satisfatória para esta passagem. A mais geralmente seguida é a de Themistius: para capturar as formas separadas, o intelecto se basta; para capturar as formas com a sua matéria, o intelecto precisa de percepção sensível. Quando o intelecto conhece as formas em si mesma, ele é simples como a linha reta, e quando ele captura as coisas - matéria e forma -, ele é composto tal como a linha quebrada, Cf. CRod, p. 445.
O mais correto, por conseguinte, será dizer que é a mesma faculdade que captura as formas puras e as formas realizadas na matéria, mas que ela não se comporta igualmente nos dois casos.
Na minha maneira de ver, a passagem é mais compreensível seguindo o sentido que lhe deram os antigos. A grandeza, a água e a carne - bem como o adunco - não são, parece-me, apreendidas exclusivamente pelos sentidos. A teoria aristotélica da percepção sensível é clara neste ponto: os sentidos recebem as qualidades que lhe são correlatas, como a cor, o som, a temperatura etc.; mas que algo é carne, grandeza, água, isto apenas acidentalmente se apreende pelos sentidos, e é o intelecto, por meio deles, que captura tais noções. A forma será, então, algo apreendido pela cooperação entre sentidos e intelecto. A forma, por sua vez, inclui certas características gerais, mas não é idêntica à essência (a forma do homem realizada em uma matéria determinada inclui, por exemplo, um certo sexo, que não é uma característica acidental da mesma natureza que ser um músico ou ser filho de beltrano). A essência do homem, por outra lado, exclui essa característica formal e é ainda mais abstrata. Ela é uma noção morfológica e compreende somente aquela características relevantes a uma explicação teleológica [Met. 1058b2; GA 778a29, b19; PA 640a33-b4].
viernes, 28 de septiembre de 2018
jueves, 27 de septiembre de 2018
jueves, 13 de septiembre de 2018
Pessoals, vou tentar me organizar para, junto com meus estudos atuais, começar a ler sobre marketing.
Vejam, o período eleitoral (mas a política como um todo) é muito sintomático. Idolatramos pessoas como Aécio Neves, Dilma Rousseff, Marina Silva, Jair Bolsonaro e Lula. Gente que que no dia a dia não seria notada por ninguém, se não fosse toda a publicidade em cima delas. Gostaria de saber se existem estudos sobre marketing a partir das psicologias evolutivas, etc e tals.
O marketing tem aparecido para mim como algo que indica de maneira bem forte o que somos como espécie.
Vejam, o período eleitoral (mas a política como um todo) é muito sintomático. Idolatramos pessoas como Aécio Neves, Dilma Rousseff, Marina Silva, Jair Bolsonaro e Lula. Gente que que no dia a dia não seria notada por ninguém, se não fosse toda a publicidade em cima delas. Gostaria de saber se existem estudos sobre marketing a partir das psicologias evolutivas, etc e tals.
O marketing tem aparecido para mim como algo que indica de maneira bem forte o que somos como espécie.
lunes, 10 de septiembre de 2018
martes, 4 de septiembre de 2018
lunes, 3 de septiembre de 2018
Carta aos humanos
O que aconteceu ontem no Rio de Janeiro foi um gravíssimo caso de injustiça. A completa destruição de mais de vinte milhões de artefatos - entre eles fósseis, vestígios antropológicos e documentos históricos - não foi somente uma perda de valor incalculável de patrimônio histórico e científico do povo carioca, fluminense e brasileiro, mas também foi uma enorme injustiça contra a história, a memória e a identidade dos diversos povos e civilizações que tiveram parte de suas culturas destruídas ontem no incêndio do Museu Nacional.
No qual constava mais de 90.000 artefatos produzidos por civilizações indígenas brasileiras - lá estavam TODAS múmias encontradas em solo brasileiro -, 1.800 artefatos das civilizações ameríndias - incluindo múmias dos Andes -, 750 peças de civilizações mediterrâneas, 700 itens arqueológicos de civilizações do antigo Egito, 700 objetos africanos e afro-brasileiros e um acervo proveniente de povos do oceano Pacífico - incluindo uma belíssima bandeja escupida em basalto vinda de Vancouver, Canadá.
E também uma irreparável injustiça contra o trabalho de inúmeros indivíduos, entre eles arqueólogos, antropólogos, paleontólogos, funcionários, estudantes de pós-graduação, enfim, cientistas, aventureiros e cidadãos de todos os tipos.
Esta extrema injustiça foi causada pela desimportância que nossa cultura, no presente, dá à sua identidade, história e memória como brasileira, americana e humana.
Pedro Possebon, Santo André, 3 de setembro de 2018
No qual constava mais de 90.000 artefatos produzidos por civilizações indígenas brasileiras - lá estavam TODAS múmias encontradas em solo brasileiro -, 1.800 artefatos das civilizações ameríndias - incluindo múmias dos Andes -, 750 peças de civilizações mediterrâneas, 700 itens arqueológicos de civilizações do antigo Egito, 700 objetos africanos e afro-brasileiros e um acervo proveniente de povos do oceano Pacífico - incluindo uma belíssima bandeja escupida em basalto vinda de Vancouver, Canadá.
E também uma irreparável injustiça contra o trabalho de inúmeros indivíduos, entre eles arqueólogos, antropólogos, paleontólogos, funcionários, estudantes de pós-graduação, enfim, cientistas, aventureiros e cidadãos de todos os tipos.
Esta extrema injustiça foi causada pela desimportância que nossa cultura, no presente, dá à sua identidade, história e memória como brasileira, americana e humana.
Pedro Possebon, Santo André, 3 de setembro de 2018
domingo, 2 de septiembre de 2018
Lista de livros sobre ética
- SINGER, Peter Albert David. Writings on an ethical life
- ARISTÓTELES. The Nicomachean ethics
- BLACKBURN, Simon. Being good: a short introduction to ethics
- ARISTÓTELES. The Nicomachean ethics
- BLACKBURN, Simon. Being good: a short introduction to ethics
Lista de livros sobre Lógica
- SOUZA, João Nunes de. Lógica para ciência da computação: uma introdução concisa
- HODGES, Wilfrid Augustine. Logic. 2. ed. London, GBR: Penguin Books, 2001. 292 p. ISBN 141003146
- BROOKSHEAR, J. Glenn. Ciência da computação: uma visão abrangente
- HANDBOOK of philosophical logic. Edição de Dov M. Gabbay, F. Guenthner
- HODGES, Wilfrid Augustine. Logic. 2. ed. London, GBR: Penguin Books, 2001. 292 p. ISBN 141003146
- A PHILOSOPHICAL companion to first-order logic. Edição de R. I. G. (ED) HUGHES
- KLINE, Morris. Mathematical thought from ancient to modern times
- KNEALE, W C; KNEALE, Martha; KNEALE, William. The development of logic
- MENDELSON, Elliott. Introduction to mathematical logic
- WHITEREAD, Alfred North; RUSSELL, Bertrand; WHITEHEAD, Alfred North. Principia Mathematica
- HILBERT, David; ACKERMANN, W.; LUCE, Robert E. Principles of mathematical logic
- HODGES, Wilfrid Augustine. Logic. 2. ed. London, GBR: Penguin Books, 2001. 292 p. ISBN 141003146
- BROOKSHEAR, J. Glenn. Ciência da computação: uma visão abrangente
- HANDBOOK of philosophical logic. Edição de Dov M. Gabbay, F. Guenthner
- HODGES, Wilfrid Augustine. Logic. 2. ed. London, GBR: Penguin Books, 2001. 292 p. ISBN 141003146
- A PHILOSOPHICAL companion to first-order logic. Edição de R. I. G. (ED) HUGHES
- KLINE, Morris. Mathematical thought from ancient to modern times
- KNEALE, W C; KNEALE, Martha; KNEALE, William. The development of logic
- MENDELSON, Elliott. Introduction to mathematical logic
- WHITEREAD, Alfred North; RUSSELL, Bertrand; WHITEHEAD, Alfred North. Principia Mathematica
- HILBERT, David; ACKERMANN, W.; LUCE, Robert E. Principles of mathematical logic
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